Deus Sabaoth, o aspecto bélico da Liturgia

Deus Sabaoth, o aspecto bélico da Liturgia

de Don Emanuele Borserini

Originalmente publicado aqui

Traduzido pelo diácono Wellington José de Castro

Deus Sabaoth, o aspecto bélico da Liturgia

Exército de anjos

Desde o primeiro dia da Quaresma, a Quarta-feira de Cinzas, a Igreja fala deste tempo litúrgico evocando o “combate contra o espírito do mal” que se dá por meio das “armas da penitência” (Oração Coleta). Esta linguagem militar, aparentemente estranha ao Cristianismo, é uma categoria típica da liturgia e podemos buscar seu sentido profundo a partir de uma oração da Missa que todos conhecemos, certamente de cor, mas cujo significado não é tão imediato: o Sanctus. Trata-se de um texto puramente litúrgico que serve de ligação entre duas partes da anáfora eucarística: o prefácio e as primeiras invocações consecratórias. É usada em todas as liturgias católicas e ortodoxas e permaneceu mesmo em algumas das protestantes.

Por trás do rito cristão do Sanctus está a liturgia hebraica e precisamente as orações do Shemá Israel e da Tefillá, que todo israelita piedoso reza muitas vezes ao dia para louvar o Senhor. Com esta introdução à oração, a liturgia hebraica une-se à oração dos anjos transmitida por dois profetas: o Sanctus dos serafins ouvido por Isaías (Is 6,3) e o Benedictus reconhecido no barulho produzido pelas asas dos querubins por Ezequiel (Ez 3,12). A busca desta unidade com a oração angélica deve-se à consciência de que a nossa condição de existência fragmentada no tempo e no espaço torna nossa pobre oração inadequada a louvar a Deus como Ele merece. Eis porque aquele que reza pede ajuda e conforto àqueles que foram criados especialmente para tecer elogios de modo perfeito. Para nós a referência é, obviamente, também o Novo Testamento, em particular a Ap 4,8, em que os seres vivos cantam Sanctus e Benedictus, e Mt 21,9, onde o Benedictus  é o grito das crianças na entrada de Jesus em Jerusalém. Também a parte central do Sanctus, o Hosana, era presente na liturgia veterotestamentária antes de ser acolhido na nossa: é a invocação do dom da salvação que encontramos na oração codificada da Bíblia, ou seja, os Salmos. Estas poucas referências bíblicas fornecem-nos o contexto para compreender adequadamente uma oração bastante complexa: o contexto é desde o princípio aquele litúrgico, expresso por elementos como o templo, os anjos, o Apocalipse, a Jerusalém celeste, a absoluta transcendência de Deus expressa pela sua definição de “três vezes santo” que, porém, se torna acessível e cognoscível justamente por meio de seu Cristo que vem…

Em todos os textos, excluindo-se aquele do Evangelho, estas fórmulas estão ligadas aos anjos: sua presença na liturgia é fundamental, ainda que com a última reforma litúrgica eles tenham sido muito marginalizados. Durante séculos, nossos ambientes litúrgicos eram cobertos de imagens de anjos, não só como sujeito das representações, mas também, e sobretudo, como um elemento decorativo dos espaços entre representações reais dos elementos arquitetônicos e de todas as partes funcionais dos mobiliários e objetos litúrgicos; hoje, infelizmente, a iconoclastia da arte contemporânea não ajuda a ver os anjos ao nosso redor. Devemos redescobrir uma sã teologia das hierarquias celestes que nos pertence desde sempre, do contrário é inevitável que delas se apoderem sempre mais os charlatães que propõem esoterismo, magia, new age e tantas outras coisas como alternativa, segundo eles mais “racional”, à religião. Tendo em vista que a existência dos anjos é uma verdade, não pode ser eliminada e, se nós que temos a possibilidade de falar deles segundo a verdade não o fazemos, falam outros de modo errado e perigoso. Pensemos, por exemplo, em quantos deles são enumerados no hino Te Deum, proclamado aos domingos e nas solenidades ao final do Ofício das Leituras, um texto que retoma e expande aquele do Sanctus:

 

Tibi omnes angeli, tibi cæli et universæ potestates,

tibi cherubim et seraphim incessabili voce proclamant:

Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabaoth.

Pleni sunt cæli et terra maiestatis gloriæ tuae.

Te gloriosus Apostolorum chorus,

te prophetarum laudabilis numerus,

te martyrum candidatus laudat exercitus.

Te per orbem terrarum sancta confitetur Ecclesia.

 

Interpretando um pouco a linguagem poética, pode ser traduzido, sem se afastar muito do texto, deste modo: “Como no céu todos os anjos, as potestades, os querubins, os serafins, a gloriosa fileira dos apóstolos, o grande destacamento dos profetas e o exército dos mártires te aclamam três vezes santo, assim em toda a terra também a Igreja te reconhece como tal”. É interessante que os três termos utilizados para descrever a assembleia dos apóstolos, dos mártires e dos profetas tenham todos também um significado bélico: chorus significa também fileira, numerus também destacamento militar, exercitus, por fim, é evidente. Além disso, mesmo o Hosanna, a segunda parte do Sanctus que provém do Sal 118, o Salmo da Páscoa, tem um fundo militar: de fato, diz “dá, Senhor, a salvação, dá, Senhor a tua vitória”; esta vitória é a vitória da batalha decisiva da história entre Jesus e a morte, e está presente na liturgia desde a Didaché, o mais antigo texto litúrgico cristão. De resto, também o “Deus do Universo” não é a melhor tradução de sabaoth que, de fato, prudentemente, em latim tinha sido somente transliterada, porque na realidade significa “Deus dos exércitos”. Sabaoth é um dos tantos atributos de Deus que encontramos nas Escrituras e justamente surgiu no âmbito da liturgia onde estes exércitos representam a assembleia litúrgica celeste composta de anjos que se coordenam com uma ordem precisa que não é somente aquela do universo bem harmonizado, o cosmos, mas é uma ordem de ação e hierárquica como a militar. Sendo eles os ministros da liturgia celeste, também entre os anjos há uma ordem precisa, a ordem que se reflete sempre de modo imperfeito na nossa liturgia terrena.

Deus Sabaoth, o aspecto bélico da Liturgia

Por isso a palavra sabaoth deveria ser retomada em sua forma original como amém, Hosana, aleluia, kyrie eleison e marana thá: são palavras dificilmente traduzíveis e que por séculos foram deixadas em sua linguagem original, na qual têm uma riqueza de significado inigualável por qualquer tradução. Estas dificuldades de tradução nos ensinam a ter grande respeito pela palavra litúrgica: pronunciá-la bem quando nos é entregue e não mudá-la nunca segundo o nosso gosto. Ela é a palavra da Igreja que responde, traduzindo-a em sua linguagem, à Palavra de Deus; é o diálogo entre o Esposo e sua Esposa, para usar a linguagem do Apocalipse; não nos pertence! A atenção à palavra litúrgica não diz respeito somente à sua formulação literal, mas também ao modo de proclamá-la; por exemplo, ao longo da Missa, encontram-se dois momentos rituais que, pela sua natureza, são executados em forma de canto: um é o Alleluia, o outro justamente o Sanctus. São dois ritos importantíssimos: o primeiro é o canto da alegria pascal que, antecedendo a proclamação do Evangelho, nos atesta que aquela não é letra morta, mas palavra do ressuscitado, isto é, de alguém vivo; o segundo porque é o mesmo canto que os anjos executam durante a liturgia celeste. O verdadeiro nome do primeiro é “canto ao Evangelho” e, porque se chama canto, um motivo deve haver. O segundo, em vez disso, é introduzido pelo maravilhoso rito do prefácio, o qual sempre termina com palavras que recordam o canto dos anjos e convidam a assembleia ao canto; percebe-se, portanto, pelo ouvido que algo destoa se a este convite segue uma recitação. Mesmo a Introdução Geral do Missal Romano não deixa espaço para dúvidas: em outros lugares ele mostra várias maneiras de cantar ou recitar os textos, mas quando se trata destes dois diz apenas canitur (IGMR, 62) e cantat (idem, 79). Não é assim, por exemplo, para o Pater: é algo louvável cantá-lo, mas a sua fórmula introdutória é “ousamos dizer” e a Introdução diz, de fato, dicunt (idem, 81). Recitá-los é um erro, sobretudo quando se cantam outras partes da Missa. Portanto, primeiro se deve estar seguro de poder cantar Alleluia e Sanctus, depois se pode ajuntar gradualmente todo o resto a partir, obviamente, do Ordinário da Missa, que é como o seu esqueleto. Além disso, o fundo bíblico do Sanctus que acenamos fornece-nos uma indicação precisa também sobre o modo de cantá-lo: trata-se de um grito-proclamação, até mesmo um fragor de asas, segundo Ezequiel, um canto elevado por fileiras militares; deve, logo, ser um canto vigoroso e viril! O significado militar de sabaoth, enquanto nos faz cantar com os anjos, leva-nos também à dura realidade: a vida cristã é uma batalha e a liturgia, fonte e cume da vida cristã, não é e não pode ser menos que isso. A linguagem bélica pertence à nossa fé desde a Sagrada Escritura.

Deus Sabaoth, o aspecto bélico da Liturgia

Basta pensar que o primeiro anúncio da salvação é o anúncio de uma hostilidade: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela: esta te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15). Trata-se de uma luta implacável, porque o termo hebraico traduzido por “inimizade” indica uma hostilidade radical, uma batalha até a última gota de sangue. Não nos admiremos, então, que entre as imagens que a Bíblia usa com mais frequência esteja justamente aquela bélica. Toda a história de Israel é permeada de batalhas e hostilidades que são a ocasião para demonstrar aos olhos dos outros povos e de Israel mesmo que ser o povo de Deus significa ter consigo uma força invencível que não depende de sua bravura militar, mas da presença de Deus. E assim, no final da Bíblia, no Apocalipse, o fim dos tempos é descrito exatamente como uma guerra cósmica. A liturgia celebra a vida cristã e a história da salvação que são uma verdadeira e própria batalha, a perene batalha entre o Bem e o Mal. Esta linguagem é mitológica, mas justamente por isso profundamente verdadeira. Uma batalha que “não é contra a carne e o sangue, mas contra os Principados e as Potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra os espíritos do mal que vivem nas regiões celestes” (Ef 6,12), porém somos cientes de ter ao nosso lado os anjos que permaneceram fiéis, que na liturgia estão ao nosso lado e usamos suas mesmas orações.

Esta conotação militar deve dar um estilo a todo o nosso modo de participar da liturgia, a começar pelo jeito de entrar na igreja, de estar sentados, de mover-nos quando nos é pedido um serviço: ver os soldados que, durante a batalha, se movem sem a gravidade que a seriedade do momento implica não é tranquilizador… Desde o início da celebração estamos esperando que apareça o General para combater ao seu lado: a palavra tabernáculo deriva do termo latino que indica a tenda militar, em particular a tenda do comandante que está no centro do acampamento. Finalmente, quando o sacerdote e os ministros se dirigem em procissão ao altar, eis que o General desfila com seus oficiais, Cristo e os anjos. Depois começará uma conversa porque o General vai querer falar com cada um de nós. Quando se vai ao encontro de alguém importante, prepara-se bem para não fazer feio, assim também quando vamos falar com a Pessoa mais importante de todas. O sacerdote usa vestes próprias justamente porque, naquele momento, não age por si mesmo, mas em nome de Deus e da Igreja e, por meio das orações de vestição que o sacerdote pode e é convidado a rezar enquanto põe os paramentos para a Missa, podemos ver mais uma vez como a conotação militar esteja presente na liturgia. O amito, que se coloca no pescoço e é mais alto na parte posterior da cabeça, é como um elmo, o elmo da salvação, segundo São Paulo (cf. 1Ts 5,8 e Ef 6,17). A semelhança do amito com o elmo é mais evidente naquelas ordens religiosas que prevêem um hábito com o capuz, porque por estes o capuz é utilizado como o barrete dos padres seculares e recoberto inteiramente pelo amito, de como que quando se cobrem a cabeça levam sobre ela também o próprio amito.

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A túnica é a veste branca lavada pelo sangue do cordeiro (cf. Ap 7,14): a nossa força. A vestição da túnica é uma referência ao mundo romano, com cujo gesto se marcava a passagem à idade adulta; com ele o menino tornando-se adulto assumia os direitos e os deveres civis a partir do serviço militar. O cíngulo, como qualquer coisa que cinge uma parte do corpo, representa a pureza que se guarda, entre outras formas, especialmente na castidade; uma pureza não tanto sexual quanto de intenção para compreender e executar prontamente as ordens do comandante. O manípulo é o sinal da fadiga e da dor do soldado, porque deriva do lenço que os romanos usavam para enxugar o suor e as lágrimas; o manípulo é colocado no pulso porque, tendo sido inventados os bolsos somente no “obscuro” Medievo, os romanos portavam o lenço unido ao pulso. A estola é a veste da imortalidade (cf. 1Cor 15,53), aquilo que todo guerreiro, desde a mitologia mais antiga, deseja; ademais é o paramento identificador do ministério ordenado, motivo pelo qual erram profundamente os sacerdotes que justificam o seu não-uso sob a casula dizendo que não se vê. A planeta ou a casula apoiada sobre o pescoço e os ombros é o jugo suave de Jesus (cf. Mt 11,30), a couraça contra os golpes do maligno. As armas que temos à disposição são as da luz (cf. Rm 13,12), a luz da fé.

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Diante deste guerreiro tão armado, agita-se o estandarte da cruz, como poeticamente o apresenta o hino quaresmal Vexilla Regis, de Venanzio Fortunato, e o estandarte é a bandeira que mostra onde se encontra o rei no campo de batalha. O sacerdote com todos os paramentos para a Missa é uma catequese visível da vida cristã, que é uma luta contra o mal: Deus, que já o venceu, nos dá o capacete da sua graça e nós, que usamos a veste branca do batismo, se a conservamos pura com a penitência, temos em nós o germe da vida imortal que podemos cumprir assumindo o jugo suave de Cristo. Além disso, não podemos nos esquecer que ao nosso lado temos continuamente à disposição um valioso escudeiro: o anjo da guarda. Os anjos servem a Deus a todo o momento, são seus mensageiros e mandatários; assim, para cada um de nós, Deus estabeleceu que houvesse um anjo para nos aconselhar sobre a estratégia bélica, ajudar-nos a interpretar bem a vontade do General e a limpar e manter em bom estado as armas. Com este bom equipamento podemos também nós, com o sacerdote, subir os degraus do altar e apresentar-nos diante de Deus para participar do seu “bom combate” (2Tm 4,7). E não é uma ousadia tola, mas é Deus mesmo que quer vencer sua guerra por meio de nós, não sozinho, mas com aqueles que criou e amou: “E o Deus de paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés” (Rm 16,20). É Deus que já esmagou o inimigo com a morte e ressurreição de Jesus, mas no seu eterno presente Ele continua a fazê-lo através de nossos combates para que se revele ao mundo e resplandeça sempre mais a sua vitória. Cada vez que são celebrados os mistérios do Senhor, o inferno treme porque se aproxima sua derrota definitiva, quando Ele voltará na glória e tudo será definitivamente submetido e reinará verdadeiramente a paz, aquela verdadeira, e não a que o mundo dá (cf. Jo 14,27).

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