A música litúrgica

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Aqui transcrevemos um artigo da equipe do site do padre Paulo Ricardo (Cristo Nihil Preponere) sobre a música litúrgica. A fonte dele está aqui.

 A Missa católica foi o grande berço da música ocidental. Através da polifonia e do tradicional cantochão – o gregoriano -, a Igreja pôde transmitir a Palavra de Deus aos quatro cantos da terra, atingindo tanto os incautos quanto as almas mais elevadas. Foi precisamente por isso que, ao longo de sua história, o Magistério procurou distinguir, repetidas vezes, a música litúrgica ou sacra dos cantos seculares.

Com o advento da revolta protestante e o surgimento de expressões musicais das mais variadas, começaram a proliferar práticas fundamentalmente alheias ao autêntico espírito litúrgico. Foi então que o Concílio de Trento interveio no conflito cultural da época – lembra Monsenhor Guido Marini – “restabelecendo a norma pela qual era prioritário na música aderir à palavra, limitando o uso dos instrumentos e indicando clara diferença entre música profana e música sacra”. A contrarreforma do Concílio simplesmente pôs abaixo o castelo de cartas do protestantismo. A liturgia romana foi “um dos instrumentos mais poderosos da propaganda jesuítica”, derriçando as heresias das seitas ao mesmo tempo em que revigorava a tradição musical daquele período.01

Nos anos seguintes à reforma tridentina, a Igreja continuou sustentando o canto gregoriano como a legítima música litúrgica. E ainda hoje o ensinamento permanece o mesmo. Dando vitalidade aos trabalhos de São Pio X, diz o Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum Concilium, que a “Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar.”02Todavia, apesar das claras admoestações dos padres conciliares – e, obviamente, do magistério posterior -, abriu-se espaço na Missa para expressões bruscamente opostas ao “sentire cum Ecclesia”, chegando-se a tachar a música louvada pelo Sacrossanto Concílio como “velharia”, “coisa ultrapassada” e outros pejorativos.

A argumentação contra o tradicional canto litúrgico – bem como a outras áreas da Tradição – redunda na ideologia do pauperismo. A Igreja não deveria, nas suas celebrações, assumir uma posição rígida, mas simplista, adotando a criatividade popular de forma totalmente subjetivista e aleatória, como se a liturgia fosse um canteiro de obras, sempre aberto a modificações. O protagonista da ação litúrgica passa a ser o povo, qual ocorre nos regimes democráticos da teologia calvinista: sem espaço para distinções, o culto deve ser de todos.

Com efeito, assim como o simplismo de Calvino acabou com a música na França de sua época, o mesmo raciocínio está destruindo as celebrações católicas de agora, pois no centro da ação não está Deus e a reverência devida a Ele, mas o gosto pessoal de um grupo que prevalece, de paróquia em paróquia, sobre o de outros03. E “uma Igreja que se baseia nas decisões da maioria” – recorda o Cardeal Joseph Ratzinger – “torna-se uma Igreja meramente humana”, uma vez que o que se faz a si mesmo “tem sabor do ‘si mesmo’ que desagrada a outros ‘si mesmos’ e bem cedo revela a sua insignificância”04.

No seu livro sobre a liturgia, Monsenhor Guido Marini procura lembrar que “a música sacra não pode ser entendida como expressão da pura subjetividade” já que “essas formas musicais”, ou seja, o gregoriano e a polifonia – “na sua santidade, bondade e universalidade – são precisamente as que traduzem o autêntico espírito litúrgico em notas, melodia e canto: encaminhando para a adoração do mistério celebrado; tornando-se musicada exegese da palavra de Deus”. Do mesmo modo, concorda Bento XVI quando diz que “nem sequer a grande música o gregoriano, ou Bach, ou Mozart é algo do passado, mas vive da vitalidade da liturgia e da nossa fé. Se a fé for viva, a cultura cristã não se tornará algo do “passado”, mas permanecerá viva e presente.”05

Recentemente, a escritora brasileira Adélia Prado fez uma ótima colocação acerca da dessacralização da liturgia. A teologia da libertação, comentava, na ânsia de atingir o pobre acabou por torná-lo mais pobre, pois retirou-lhe a única riqueza que ainda lhe restava: a beleza da liturgia.06 No lugar do órgão colocou-se a sanfona, no lugar das antífonas, os gritos de guerra, e a isso somados os pés de bananeiras, cocos, os berrantes e bandeirolas de festa junina. Ora, é evidente que assim a missa se torna um passatempo, um entretenimento tacanho e brega que, mais cedo ou mais tarde, deixará de ser interessante como qualquer programa de auditório.

O rigor da Igreja com o canto e com as demais partes da missa tem um nome: amor. É por amor a seu Divino Esposo, Jesus, que a Igreja adorna o templo com as mais belas peças e objetos. E assim também com a música. Ela deve se unir ao louvor dos anjos do céu, sendo uma verdadeira expressão de adoração a Deus, que motive sempre e mais e mais o seu rebanho a responder o imperativo das Sagradas Escrituras: “Cantai ao Senhor um cântico novo” (Cf. Sl 96, 1)

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

  1. CARPEAUX, Otto Maria. O Livro de Ouro da História da Música. Ediouro

  2. Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 116 e 117

  3. Ibidem n. 1

  4. RATZINGER, Joseph. Compreender a Igreja hoje, vocação para comunhão. Editora Vozes

  5. Audiência Geral de Bento XVI

  6. Discurso de Adélia Prado sobre a liturgia católica

Aqui também cabe uma consideração. Diz-se que, por causa das lutas entre protestantes e católicos e, igualmente, por causa dos abusos musicais (como, por exemplo, adaptar-se melodias profanas às partes ordinárias da missa ou as loucuras que aconteciam nas chamadas “missas dos tolos”) os cardeais que estudam a reforma do Missale Romanum, logo após o fim do Concílio de Trento, pensaram em retirar do Rito Romano quaisquer músicas. Então, eles ouviram essa sequência musical do Ordinário da Missa, feita pelo compositor italiano Giovanni Pierluigi da Palestrina, em honra ao papa Marcelo II.

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O compositor Palestrina

Então, não apenas mudaram de ideia como, após o papa Marcelo, começaram a usar, até o papa Paulo VI, sua missa como ordinário das coroações papais. Veja que beleza e que sacralidade abaixo.

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